Xô, Temer. E cuidado com essa gente que menstrua

Como disse Zé Simão, o bafão da semana foi o mofado discurso do presidente-naftalina. Até Michel acabou pedindo: “Fora Temer”

Nada foi mais eficaz para a luta das mulheres que a fala palaciana no dia 8 de março. Correndo os olhos pela imprensa e pelas redes sociais, se vê: o presidente é o gênio da publicidade. Atraiu todas as atenções – até mesmo de quem não dá a mínima para as campanhas feministas. Unanimidade: Temer é um paspalhão, inimigo das mulheres, mas prestou um serviço, mostrou a urgência de mudar a visão política sobre as brasileiras. Teve de tudo: meme, marchinha de carnaval, piada, comentário na TV, artigo sério, análise sociológica… avacalhação. Michel deu munição para as adversárias, para o Zé Simão, que acha que a Marcela Temer só sabe o preço da granola sem glúten e da geleia diet. E para Bernardo Mello Franco, que intitulou sua crítica na Folha com um “Perdido no Tempo”.

Zapiando no rádio ouvi uma âncora dizer: “Mandá-lo-emos para aquele lugar”. De propósito ou não, os versos de Elisa Lucinda, declamados por ela hoje na Bandnews, dialogaram com o episódio. Trecho do poema Aviso da Lua Que Menstrua:

Moço, cuidado com ela! Há que se ter cautela com esta gente que menstrua… Imagine uma cachoeira às avessas: Cada ato que faz, o corpo confessa. Cuidado, moço…
Às vezes parece erva, parece hera. Cuidado com essa gente que gera. Essa gente que se metamorfoseia. Metade legível, metade sereia. Cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita.


Míriam Leitão não o poupou na coluna que mantém em O Globo:

Não foi gafe do presidente. Ele é assim. Estava convencido de que era uma homenagem às mulheres quando disse toda aquela coleção de frases feitas e velhas que confirmam o papel tradicional da mulher. Michel Temer, quando organizou seu ministério só com homens, ouviu críticas. Prometeu, então, procurar alguém “do mundo feminino”. Para ele, somos do outro mundo…

 

Nem as passeatas nas capitais, dia 8, foram tão produtivas quanto Temer. Para mim, o melhor texto sobre o feito dele é de Barbara Gancia.

Primeiramente, FORA Temer!
FORA, pelas espantosas declarações no Dia Internacional da Mulher; FORA, por sua mentalidade vergonhosamente em descompasso com o mundo; FORA, pelos valores moldados no obscurantismo da Tradição, Família e Propriedade; FORA, pela cafonice; FORA, pela parvoíce; FORA, pela impostura do seu uso de mesóclise; FORA, pelo flashback imperdoável de 1964 que provoca; FORA, por submeter o país ao seu modelo obsceno de relacionamento a dois; FORA todo seu ministério caindo aos pedaços de machos brancos indiciados pela Justiça e iludidos de que o mundo ainda lhes pertence; FORA, pela gritante falta de estatura para ser presidente; FORA, por seu desdém por mulher, pela cultura, pelo meio ambiente, pelas populações indígenas, pela pesquisa e pelo social; FORA, por ter calculado que se safaria com essa impostura criminosa a que submeteu 200 milhões de pessoas; FORA pela ladroeira; FORA por interromper nosso projeto democrático, mas, sobretudo, FORA por desmontar irremediavelmente o funcionamento das nossas instituições.
Que você termine seus dias atrás das grades junto com os outros pilantras do PMDB.

 

No caminho inverso, Cristiana Lobo, da Globonews, tentou passar a mão na cabeça do pai de Michelzinho justificando o deslize: “Problema geracional”. Não, não é, Cristiana. Trata-se de escolha política torpe. A visão pública desse governo, que excluiu as mulheres desde sua origem torta, é a de que a mulher deve se limitar à casa. Um bichinho de estimação. Melhor assim: agora todos sabem o que significa Temer. Não há mais ilusão nem para os iludidos: esse senhor é um grande fracasso. Quer reerguer a economia sem as mulheres. Disse que quando a economia voltar a crescer, a mulher, além de cuidar dos afazeres domésticos, terá mais oportunidades de empego. Oi? Sua política para as brasileiras: Jornada múltipla, oportunidade zero no mercado, encolhimento da autonomia, aposentadoria na decrepitude.

Até quem nunca disse: “Fora Temer”, dessa vez bateu panelas. E do primeiro “Fora Temer” ninguém esquece.
Nem mesmo ele. Temer tremeu em 2016 quando surgiram os primeiros gritos na rua (naquela fase em que ele tramava a puxada de tapete). Tremeu  sob as vaias na abertura das Olimpíadas. Tremeu de novo no último Carnaval, onde o refrão que mais produziu gozo e deleite, de Norte a Sul, foi … “Fora Temerrrrrrr!”

Hoje (10/3), no incêndio da favela paulistana de Paraisópolis se lia em uma faixa: “Fora!” Virou o grito de guerra mais forte em estádios de futebol, escolas ocupadas, shows de música, teatros, cinemas (quem viu Eu, Daniel Blake?). Nesta manhã, ao fazer a barba, Michel Miguel Elias Temer Lulia, 76 anos, confessou ao grande espelho do Jaburu: “Fora, Temer, você não aguenta mais!”

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