O papa Francisco, as cinzas e o menino morto na porta do Habib’s

Diante de clientes indiferentes, um garoto morre, espumando, no Carnaval. Nosso desinteresse pela vida frágil dos outros é o tema do papa nesta Quaresma

Ao final do dia de cinzas, o que ficou em mim foi: “proteger a vida frágil”. O papa argentino não brinca em serviço. Seu contundente apelo, feito ontem (1/3), na defesa dos que não têm nada, extrapola a mensagem religiosa: é um alerta de urgência dado à humanidade. Ou ouvimos ou nos rendemos à barbárie. Na abertura da Quaresma – que os não-católicos podem entender como o tempo de fazer meia-volta e limpar o que todos nós sujamos –, li o discurso de Chico segundos depois de engolir a notícia da morte de um garoto na porta do Habib’s, da Vila Nova Cachoeirinha, zona Norte paulistana.

João Victor Souza de Carvalho, 13 anos, costumava pedir esmolas ali. Era domingo de carnaval. Seguranças do restaurante, encarregados de impedir que os invisíveis aparecessem para tirar o sossego dos clientes, agrediram o moleque, que, com a boca espumando, caiu sem vida no chão. A descrição da cena é de uma testemunha de vida frágil: a catadora de latinhas Silvia Helena Troti, 59 anos, a quem a PM ignorou assim que chegou ao local para registrar o ocorrido. Mas Sílvia, impertinente, repetiu o relato ao delegado da 28º DP, no dia seguinte.

Se a Polícia Militar tivesse dado crédito à testemunha, os dois homens vestidos com o uniforme do restaurante teriam sido presos em flagrante para explicar a morte. A catadora, no entanto, foi considerada uma noia lazarenta. Como era Lázaro – mencionado ontem pelo papa –, um cidadão cheio de chagas, fedido, comendo as migalhas que sobravam da mesa do rico.
Aliás, Chico, de novo, pegou pesado com os ensoberbados de plantão. Aos esnobes, a quem a grana e o status importam mais que a vida dos frágeis, mandou esta: “O fruto do apego ao dinheiro é uma espécie de cegueira: o rico não vê o pobre esfomeado, chagado e prostrado na sua humilhação”.

No carnavalesco domingo, a graça foi pedir as aparas da esfirra. E nem se tratava da afronta do garoto pobretão ao adulto abastado. Nesse restaurante popular, os salários dos funcionários são curtos. Os seguranças cresceram vendo a fome de perto, com as próprias vidas fragilizadas. A soberba era estarem ali, nos festejos de Momo, com o poder de sentar a pua em quem se aproximasse dos fregueses da casa. E os fregueses da casa, igualmente, fazem parte das linhas mais para baixo na pirâmide social. Lázaro comendo Lázaro. Reprodução do modelo que – se entendi bem o dito de Chico – cega quem tem um tantinho.

O dinheiro é o principal motivo da corrupção, fonte de inveja, litígios e suspeitas, segundo o papa. Os pequenos poderes produzem o mesmo efeito dos bens materiais: sustenta a lógica egoísta. E isso não deixa espaço para o amor, além de dificultar a paz.

A Quaresma é o tempo para dizer não. Pelo menos é o que garante o argentino. Não à asfixia do espírito pela poluição – causada pela indiferença e pela negligência de pensar que a vida do outro não me diz respeito; por toda a tentativa de banalizar a vida.

Resumo rápido:

Um menino mirrado que não teve a chance de passar dos 13 anos. Uma catadora de lixo que viu a verdade, mas não mereceu atenção nem ouvidos. Um par de seguranças que não pôde enxergar a própria história no episódio e só conseguiu destilar o ódio. Uma PM – feita de homens pobres e mal pagos – que não protege a vida frágil dos outros. Um grupo de fregueses que fingiu não ver o Lazarinho, a truculência contra ele, o fim. Um domingo de Carnaval calorento, escroto e sem graça. Um retrato reles, ordinário – mas muito fiel – da miséria de todos nós.
Generoso, o papa lembra que Quaresma é recomeço. Quem sabe?

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