Yoko Ono e subversão

O que a artista pensaria dos visitantes que escreveram em sua obra coisas como "Açaí é superestimado"?

Acenda um fósforo e assista até que se apague. Toquem uns aos outros. Escute a respiração de seu filho. Escute a respiração de seu amigo. Continue escutando. Essas são algumas das Instruções de Yoko Ono na exposição O céu ainda é azul… Você sabe, em cartaz em São Paulo. Comecei a caminhar pelo salão do Instituto Tomie Ohtake um tanto resistente ao impacto da simplicidade, como que rendida à confusão do mundo lá fora e aos meus afazeres na redação de CLAUDIA, de onde eu havia saído para almoçar; aos poucos, porém, fui me abrindo àquela espécie de meditação artística proposta por cada uma das obras. Em pouco tempo, nem a conversa das pessoas à minha volta nem minhas próprias auto-interrupções para tirar fotos eram capazes de desfazer o morninho que ia tomando conta de mim – no fim, eu já me sentia quase flutuando, agora rendida não mais à agitação, mas ao ativismo poético e sem afetações da artista, e também às lembranças de Tóquio, que visitei ano passado e que, de certa forma, nunca mais deixei.

Continuei caminhando. Em “Faça um depoimento de alguma violência que tenha sentido como mulher”, foi interessante perceber como é diferente ler um depoimento na tela do celular, na correria do dia, e um ali, pregado na parede e na experiência proporcionada pela exposição – me senti próxima àqueles papéis, àquelas mulheres. Segui andando. Segui experenciando.

Até que parei em frente a um mural onde o pedido de Yoko aos visitantes era: escreva aqui suas memórias sobre sua mãe.

A essa altura já sem defesas (e atrasada para voltar ao trabalho), peguei um dos post-its coloridos, um lápis e escrevi três linhas que me vieram à cabeça. Aquelas memórias relacionadas à minha mãe tinham me pegado desprevenida, e eu as colei com toda a seriedade no mural. Ainda com a maior seriedade, começo a ler as lembranças deixadas pelos outros visitantes. No entanto… Em meio a algumas memórias duras (“Abandono”, “Tantas críticas e tentativas de amor”) e outras simples e doces (“Sempre por perto”, “Bolinho de chuva e colo”), encontro as seguintes frases:

“Açaí é superestimado”
“É nada, açaí é uma delícia”
“Este post-it é um quadrado ou um retângulo?”
“Ouça Britney Spears”

Não havia como negar: rapidamente, aquelas frases sequestraram um pouco da névoa aconchegante que havia tomado conta de mim. Escrever as memórias sobre sua mãe… Era esse o convite, era pegar ou largar, e não havia nada de errado em largar – um convite não é uma obrigação. Mas escrever sobre outro assunto qualquer no post-it? Assuntos meio bestas, ainda por cima? Respirei fundo, tentando me proteger das agulhadas de uma irritação que se aproximava. E saí do Tomie Ohtake imaginando o que Yoko Ono acharia daqueles post-its intrusos.

Podia até ser que ela enxergasse beleza naquelas recusas. Vida, interação do público, criatividade. A subversão, às vezes, é muito mais bela do que o cumprimento de regras, sem dúvida. O filho que assume sua homossexualidade apesar da educação religiosa. Um caso de amor extraconjugal em um casamento de fachada. Historicamente, não faltam desobediências bonitas. A subversão dos alemães que se arriscaram acolhendo judeus na segunda guerra. A desobediência dos que vão às ruas inconformados com a ditadura, a guerra, o desrespeito aos direitos humanos. Nem sempre é fácil distinguir quando a subversão habita o reino do belo e quando, pelo contrário, adentra o pântano da falta de ética. Quando acaba o que pulsa e começa a resignação? Quando a liberdade é apenas outro nome que se dá ao desrespeito e ao egoísmo?
Caminhando, lembrei do livro A Alma Imoral, de Nilton Bonder, que virou uma das minhas peças de teatro favoritas, e procurei no meu Instagram um trecho:

Há um olhar que sabe discernir
o certo do errado e o errado do certo.
Há um olhar que enxerga quando a
obediência significa desrespeito e
a desobediência significa respeito.
Há um olhar que reconhece
os curtos caminhos longos
e os longos caminhos curtos.
Há um olhar que desnuda,
que não hesita em afirmar
que existem fidelidades perversas
e traições de grande lealdade.
Este olhar é o da alma.

Podia ser, também, que Yoko Ono visse naquela desobediência apenas um fato sem importância nem desimportância, numa leitura zen que não parte de como as coisas deveriam ser, mas simplesmente de como as coisas são. Ela propôs uma coisa, algumas pessoas escreveram outra coisa, a chuva cai forte lá fora. Podia ser que ela ficasse desapontada, ou que pensasse em termos de diferenças culturais, ou até que se lembrasse de si mesma, de alguma molecagem que fez em alguma exposição quando era adolescente, quem sabe. Caso Yoko Ono considerasse aquele ato um desrespeito, pode ser que guardasse para si, talvez se lembrando de sua Peça para Limpar III: “Tente não dizer nada negativo sobre ninguém, por três dias, por 45 dias, por três meses”.

Lembro de uma amiga que até gostou da exposição, mas que achou essa instrução em si, além de “meio Poliana”, um pouco inviável. Eu gostei. A proposta não me parece condenar toda e qualquer fala negativa. A proposta é tentar. E, na sequência, importante: ver o que acontece.

Pode ser que, nessa tentativa, nos descubramos mais leves. Que nosso dia fique mais sereno. E pode ser que façamos uma distinção entre as falas negativas: algumas consistem em hábitos ruins, fraquezas que podem ser transcendidas, e outras refletem nosso descontentamento com alguém ou uma situação que nos desrespeitou. Assim como nem sempre é simples diferenciar as desobediências prejudiciais daquelas que são lindas, nem sempre percebemos quando a alegria é uma dádiva e quando é uma alienação – nesse caso, enxergar o negativo e também comunicá-lo a outras pessoas é vital, é motor para a transformação.

Estou de volta à minha mesa e o assunto vai esmorecendo em minha cabeça, antes de reviver neste texto. A flutuação causada pela exposição já não está tão vívida, mas a irritação que senti com os post-its desobedientes se foi por completo. Talvez porque tenha sido transmutada pela reflexão durante a caminhada. Talvez porque só me resta aceitar que as pessoas são livres para interagir nas exposições como bem entendem. Talvez porque eu tenha me lembrado de que, aos treze anos, escrevi “Lili esteve aqui” num canto qualquer no entorno da gruta da Lapinha, numa excursão da escola. De qualquer modo, em vez de recriminar aqueles que resolveram tratar do açaí e da Britney Spears na obra de Yoko Ono, vou apenas lhes desejar que, na próxima exposição, tentem entrar no clima. E vejam o que acontece.

Liliane Prata é editora de comportamento de CLAUDIA e escreve semanalmente aqui no site. Para falar com ela, mande um e-mail para liliane.prata@abril.com.br

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