O aniversário dos nossos filhos

Nas mesas bem planejadas ou improvisadas, pode até faltar docinho, mas que não falte alma

Agora, neste momento, não faltam pais planejando a próxima festa de aniversário do seu filho. Também agora, neste exato momento, algum filho está no seu sétimo, oitavo, quem sabe nono ano de vida, sem saber quando é seu aniversário – como no ano anterior, seu dia continua sendo só mais um dia como os outros. E o mundo segue abrigando convites escritos e outros em branco, salões apertados a poucos metros de espaços exagerados; haverá mesas bem planejadas e outras apressadas, brincadeiras que darão certo e outras que não funcionarão; não faltarão parentes sorrindo nem personagens de desenhos animados providenciados por famílias desanimadas. Como sempre, há de tudo.

Há seis anos, quando eu estava grávida, pensava: que atmosfera envolverá os aniversários da minha Valentina? Quem serei eu, quem será ela?

Comemorei seus quatro primeiros anos em casa – no apartamento onde moramos, sempre aberto às pessoas queridas, ou no casarão de uma das tias dela, igualmente aberto às pessoas queridas e com uns bons duzentos metros quadrados a mais. Percebi logo que, da mesma forma que eu não seria uma dessas mães que bordam o nome da criança no uniforme e encapam seus cadernos perfeitamente, eu não seria uma mãe dessas que preparam festas impecáveis. Eu devia desconfiar disso: na época da escola, enquanto meus colegas se superavam com suas esculturas de argila cada vez mais sofisticadas na aula de artes, eu continuava repetindo meus cinzeiros tortos que, invariavelmente, saíam com cara de recém-pisoteados. Então, no primeiro ano da Valentina, eu me cobrei demais, mas nos três anos seguintes, me permiti ser a mãe que eu era e relaxei. Alegremente, eu pensava no cardápio, encomendava brigadeiros, enchia a paciência do meu então marido para que ele enchesse mais balões; era tudo leve e bom. Meu capricho era inventar de fazer o bolo – se murchasse, era só embalar os pedaços com papel alumínio: o importante era que ficasse delicioso, e para isso eu recorria ao infalível recheio de brigadeiro. Os enfeites, providenciados pela minha mãe, todo ano me surpreendiam: era aquela decoração caseira, com mais cara de álbum de família do que de Pinterest, mas de álbum de família bonito, com alma. Alma: para mim, isso era o que importava. Eu me orgulhava do meu bolo – na gravidez, eu me imaginava uma mãe amorosa, mas não uma mãe que fazia bolo –, mas me orgulhava, mesmo, era dessa alma que transbordava nas festinhas dela. Eu podia errar no cálculo do número de docinhos, mas havia vida em cada balão, disso eu estava certa. Eu adorava aquele momento em que, parada em frente à porta, antes de o primeiro convidado chegar, eu encontrava vida em cada um dos balões, dos copos coloridos, dos cantos da casa transformados para a festa.

Então, veio o primeiro aniversário em bufê infantil.

Foi ano passado. A tia da Valentina havia se separado do marido e deixado o casarão, e nosso apartamento agora era pequeno demais para comemorar seus cinco anos: a lista de mini-convidados crescera bastante, só menos do que a disposição deles para brincar no pula-pula, no escorrega e na piscina de bolinhas que, naturalmente, não tínhamos, não poderíamos alugar, não caberiam. Todos os amiguinhos dela estavam comemorando o aniversário em bufês, e então Valentina pediu uma festinha igual. Virei os olhos: festas em bufê infantil estavam longe de ser minhas preferidas – o ambiente artificial, o custo e o volume das músicas nas alturas, aquelas luzes e coxinhas frias, por maior que fosse o calor da família. Nos bufês que eu conhecia, o parabéns costumava me soar meio insípido, com gosto de papelão e cheiro de Mc Lanche Feliz, e os que conseguiam escapar disso, com suas folhas, luzes e salgadinhos naturais, geralmente custavam quatro vezes mais. Mas o pai dela me lembrou que a festa era para ela, não para mim, e concordei, a festa era dela, é claro, ele tinha razão. Ao fundo, Valentina, do alto dos seus quase cinco anos, repetia: “Bufê! Bufê!”. Bufê, estava decidido.

O pacote incluía tudo, inclusive a minha ausência: pois a mim, assim como aos outros familiares, coube apenas aparecer lá, no dia da festa. Ainda cheguei atrasada, por conta do trânsito terrível daquela sexta-feira à noite. Entrei no salão molhada de chuva, esbaforida; minha mãe me perguntou qual era o nome da princesa que ilustrava a decoração e eu não soube responder, e só consegui dar um abraço na minha filha meia hora depois de entrar naquele espaço absurdamente bem iluminado. Eufórica, Valentina corria entre as dezenas de brinquedos disponíveis, e, enquanto eu a observava brincando, me sentia uma espectadora não só dela, mas de sua festa; depois do parabéns, lembro que elogiei o bolo, mas não consegui identificar do que era o recheio.

Mas Valentina adorou a festa. Eu precisava admitir: os adultos eu não sei, mas ela, os coleguinhas, todos adoraram a festa. Naquela noite, ela dormiu exausta e feliz, e eu, que estou longe de ser alguém organizada com as finanças, lembro que fui dormir de certa forma alegre, por ter proporcionado a ela aquela festona não havia me encantado em nada, mas que coube no orçamento.

E então começou a se aproximar a chegada dos seis anos da minha filha. Seis anos são uma idade simbólica – talvez todas sejam, ao menos para nós que procuramos entender todas as horas como extremas, tal como no poema de Mario Quintana, mas os seis anos me parecem muito mais distantes dos cinco do que os cinco dos quatro; as chupetas e as fraldas são uma lembrança; Valentina agora não dorme mais abraçada ao seu bebê de brinquedo e não bate palminhas quando surge um adulto vestido de algum personagem. E aquela data era duplamente simbólica, pois seria o primeiro aniversário dela depois da separação dos seus pais. Era uma situação nova para mim, para ela, para ele e para ambas as famílias – mas é assim que as coisas são, sempre contemplando mudanças de rota, não importa muito se você está completando 6 ou 36 anos.

Telefonei para o Marcos, o nome dele é Marcos, e ele sugeriu que comemorássemos num bufê, como no ano anterior; virei os olhos, como no ano anterior. Ele me disse não é possível, você tem uma implicância com bufês, bufês são ótimos, e eu me defendi, talvez não seja isso, talvez não seja culpa dos bufês, mas algo se passa comigo quando organizo a festa da minha filha em um bufê, ou pelo menos algo se passou comigo no ano passado, algo que, se eu puder, vou evitar repetir, e a festa pode não ser minha, mas me incomoda o fato de eu não gostar da festa que organizo para a minha própria filha, eu sei lá, eu preciso fazer o bolo, eu preciso acertar em um cálculo aqui e errar em outro ali, eu preciso encher sua paciência para encher mais balões.

E aí me veio a ideia: um piquenique no Parque da Água Branca, um lugar onde sempre levo a Valentina. Ele não gostou muito, ficou com medo de chover e de dar muito trabalho, eu me comprometi a fazer tudo e ele duvidou, disse que, no fim, ia sobrar pra ele, e a gente riu – é bom quando o casamento termina, mas risadas sinceras sobrevivem. No fim, ele concordou. Já Valentina não deu muita bola para o plano, mas também não falou em bufês – aproveitei para avisá-la quando ela estava entretida no tablet, joguei sujo, eu sei.

Na véspera do piquenique, Marcos me ligou para falar que tinha visto a previsão do tempo: ia chover. Me perguntou qual era o plano B, eu desconversei. Já bastava constatar, telefone na mão, que minha segunda tentativa de bolo do dia tinha murchado terrivelmente, de um jeito que nem partir e embrulhar no papel alumínio resolveria. Puxa vida, no ano anterior, eu não sabia do que era o recheio do bolo do bufê, mas a massa definitivamente não estava murcha… Para piorar, só cinco ou seis pessoas tinham confirmado a presença, além da família. Piquenique não pode ter chuva e festa de criança tem que ter criança, mas, agora, não tinha mais jeito. Suspirei e pensei: alma, só quero que a festa dela tenha isso que entendo por alma, e o resto vai ser aquela confusão de acertos e erros como as festas dela tinham sido até ano passado, as festas dela, as minhas festas e os nossos dias, e tudo bem. Falei que, se chovesse, a gente iria para a marquise do Ibirapuera. Então dividimos a lista do supermercado e assim foi.

Domingo, o dia do piquenique, chegou, e, com ele, meu irmão, minha cunhada, minha mãe e o Marcos, todos de manhã cedo na cozinha, me ajudando com os sanduíches, os pães de queijo, a pipoca, o bolo comprado de última hora na padaria da esquina (pois é). Como teto do caminho até o parque, o céu quase azul de São Paulo: ufa!

Toalha no chão, sucos, pães de queijo arrumados, frutas na cesta, e eu, claro, enchendo a paciência do pai da minha filha para ele encher mais balões. E também para me ajudar com os enfeites de origami que eu tinha comprado dias antes: não é que ficou bonito? Já passava meia hora do horário marcado e nenhuma criança havia chegado. Valentina subiu em uma árvore completamente alheia à tensão do pai, e ele me perguntou se eu tinha mesmo chamado as pessoas, ora, é claro que eu tinha chamado…

Até que chegou a primeira criança, e depois a segunda, e então a terceira, até que, bem, começou a chegar criança demais. Entre adultos e pequenos, apareceram umas trinta pessoas que não haviam confirmado a presença. Faltou pão de queijo, faltou sanduíche, o bolo foi a conta, mas a alma se superou, era concreta, estava ali, acima, ao lado, abaixo de todos nós: alma com todas as preposições, todas as posições, em cada canto.

Os pequenos ficaram lá, correndo, saltando e gritando, brincando de pega-pega, segurando galhos e assustando as galinhas que moram no parque (“Por favor, gente, deixem as galinhas em paz”, pedi inutilmente algumas vezes). Na hora do parabéns, minha mãe tirou não sei de onde uns enigmáticos canos metalizados de onde voaram dezenas de papeizinhos metalizados; Marcos precisou arranjar uma vassoura não sei onde e nós dois passamos mais de uma hora varrendo o lugar do piquenique e o entorno. Foram dois sacos enormes de uma mistura de papeizinhos metalizados, copos descartáveis, folhas e terra, e eu, que, assim como resto dos pais, não podia sossegar a ponto de perder minha filha de vista naquele parque enorme, mal consegui conversar com os convidados… Mas como foi bom, como foi bom!

Quer dizer, algumas mães escaparam do piquenique por alguns momentos para comprar cachorro-quente de um ambulante, eu vi, e me senti meio envergonhada por ter confiado tanto na (não) confirmação da presença dos convidados, mas também estava ocupada sentindo alegria por minha filha ter no seu aniversário pais separados, porém unidos. E o bolo não tinha sido feito por mim, mas o brigadeiro do recheio, ah, o brigadeiro do recheio tinha sido acrescentado às pressas por mim, que bobagem, o bolo da padaria já tinha brigadeiro, mas achei que tinha pouco e fiquei feliz por ter acrescentado o meu.

Naquela noite, Valentina, antes de capotar na cama, disse que aquele havia sido o melhor aniversário de sua vida. E, no dia seguinte, várias mães vieram me agradecer por terem, por causa do piquenique, conhecido o parque, ou voltado lá depois de muito tempo sem ir – “vamos vir de novo semana que vem”, disseram, e eu me senti útil, acrescentando uma pequena, mas adorável mudança à rotina delas, eu que gosto tanto quando as pessoas à minha volta acrescentam pequenas, mas adoráveis mudanças à minha rotina.

No fim, foi uma festinha com cara de quando as festinhas dela cabiam em apartamentos pequenos e casarões que não existem mais: dessa vez ao ar livre, mas com espaço para bolos comprados às pressas e recheados por amor, sanduíches que faltaram, manhãs deliciosamente tumultuadas com a família participando dos preparativos. Uma volta no tempo pré-bufês, que vou tentar assegurar ano que vem, e no outro ano, e no outro, até que Valentina organize as próprias festas –aí, sim, aceitarei quando o pai dela me lembrar que as festas são dela, não minhas.

Agora, neste momento, não faltam pais planejando a próxima festa de aniversário do seu filho. E, domingo passado, quando não faltavam mães felizes ao varrerem o chão no aniversário da filha, eu, felizmente, era uma delas.

Liliane Prata é editora de comportamento de CLAUDIA e escreve aqui no site semanalmente. Para falar com ela, mande um e-mail para liliane.prata@abril.com.br

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