O eterno desafio de ser uma boa mãe de crianças em idade escolar

As amigas que trabalham e têm filhos pequenos relatam a mesma sensação de inadequação que eu sentia nos eventos da escola

Quando meus filhos iam ao colégio (entre os anos 1980 e 1990), eu me sentia um peixe fora d’água em reuniões, eventos e festas. Ali, só via mães-melhores-do-que-eu, como me referia, de forma autodepreciativa, àquelas que pareciam mais atuantes e disponíveis para as crianças.

Elas eram tão familiarizadas com o ambiente, as atividades, salas, os coleguinhas que me dava um aperto no coração: eu nunca podia buscar ou levar as crianças, não fazia parte dos comitês da feira de ciências ou da festa junina nem sabia o nome das outras mães.

Eu só trabalhava (muito) e tratava de chegar em casa o mais cedo possível (o que era bem tarde), torcendo para conseguir jantar com eles ou contar uma historinha antes de dormir. Fazia tudo que podia para não faltar às reuniões bimestrais com os professores, mas, ali, diante das mães-melhores-do-que-eu, me mortificava de culpa.

Hoje meus filhos são adultos e descobri que as coisas foram até fáceis para mim. Naquele tempo, não havia smartphones e, principalmente, WhatsApp, ferramenta de troca torrencial de mensagens, com a qual as mães se comunicam entre si. Minhas amigas que trabalham e têm hoje filhos em idade escolar reportam a mesma sensação de inadequação que eu sentia, só que multiplicada pelo número de vezes que os alertas piscam no celular.

 

Os grupos de mães trocam em média 60 mensagens por dia. Algumas são relevantes e ajudam quem tem pouco tempo para conciliar os papéis: informam o horário da excursão, dão dicas de onde encontrar um material didático específico ou mais barato, compartilham convites e relatos de reuniões às quais nem todas compareceram.

A contrapartida é o uso sem critério da ferramenta, que leva ao grupo histórias privadas, muita ansiedade e excesso de opinião sobre tudo. Sem falar nas fotos de momentos dos pequenos dos quais poucas conseguiram participar.

Uma frase inocente, como “Olha o quadro que pintei com meu filho para o Dia do Professor”, pode ser uma punhalada em quem vai sair esbaforida da reunião para o shopping para achar um presente para a manhã seguinte.

“Uma mãe envia a foto do material escolar do filho encapado e etiquetado, e eu lembro que ainda terei que passar a madrugada nessa tarefa”, lamenta uma executiva com quem conversei. Pergunto se os pais também estão nos grupos. “Eles têm um para marcar happy hours”, revela uma publicitária, confirmando o estereótipo de que eles ainda levam a paternidade de forma mais leve.

Rede solidária ou terreno minado, os grupos de mães no WhatsApp refletem um conflito até hoje mal resolvido entre as mulheres: dá pra ter tudo? “Não”, responde Indra Nooyi, CEO americana da Pepsico, em recente entrevista sobre os múltiplos papéis femininos.

Mãe de duas meninas e considerada uma das 15 mulheres mais poderosas do mundo pela Fortune, Nooyi admite sentir culpa e confessa faltar a muitos eventos da escola. Conta que, para driblar a frustração, aprendeu a usar estratagemas.

“Liguei na escola e pedi para me passarem a lista de presença dos eventos. Quando minhas filhas me cobram e dizem que só eu não estava lá, saco a listinha: ‘Não é verdade, a sra. Jones, a sra. Smith, a sra. Davis… também não estavam’ ”. As filhas, garante, se sentem melhores. Nós também deveríamos aprender a nos sentir melhores. Não podemos ter tudo, mas não estamos sozinhas.

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